quarta-feira, 28 de março de 2012

Sai da frente se não queres morrer hoje

O coração acelerou, os tremores apoderaram-se dela, uma pinga de suor frio caiu-lhe da nuca e percorreu-lhe as costas pelo que pareceu uma eternidade enquanto ele despejava cá para fora o que sentia. Desprevenida, desarmada e completamente às escuras ela teve de se conter para não soltar um "Vai para o caralho e nunca mais olhes sequer para mim!". Puxou de um cigarro. Ela limitou-se a ouvir (e a tremer de raiva) e a fingir que compreendia (ao mesmo tempo que tentava acertar os compassos do coração, naquele momento mais pequenino que uma azeitona) e que nada daquilo que ele lhe dizia a afectava (mas afectou e muito!). Merda já lhe está a apetecer outro cigarro. Continuou a ouvir, à espera que a conversa finalmente fizesse senso. A certa altura lá falou. As palavras sairam-lhe sem que a boca estivesse ligada ao cérebro, o coração dirigiu o discurso (sim, mesmo despedaçado conseguiu juntar algumas palavras, de uma forma um tanto ou quanto incoerente, só para tentar perceber o porquê). Mais um cigarro. Ele voltou à carga. Parecia que estava armado e cada palavra que dizia trespassava-a que nem balas silenciosas. Ela sentiu-se a cair por terra ("Não vais chorar sua grandessíssima parva. Ele até julgava que estava a fazer bem"). E de repente o silêncio, aquele silêncio incómodo, que noutra altura teria dado azo a um beijo, tornou-se ensurdecedor. Ela vai rabiscando com o isqueiro no volante do carro palavras soltas, coisas que lhe queria dizer mas não tem o direito de fazer, "Não me faças isto", "Cala-te e abraça-me", "Não te quero deixar", "Não vás ter com ela". De nada lhe vale, ele nunca vai compreender. O telemóvel tocou, ele tinha que se ir embora, não sem antes deixar bem claro que também ele estava muito magoado ("Então porque é que estás a fazer isto seu grandessíssimo parvo, anormal, estúpido... Ele é tão lindo.") O que ela não queria aconteceu, ele abraçou-a, ou tentou porque por esta altura ela já voltou a 'modo iceberg, não me toques que te constipas'. Ele saiu. Ela só pensava "Não desates ainda a chorar, ainda não que ele ainda te consegue ver." Ele foi á janela e pediu-lhe que lhe mandasse uma mensagem quando chegasse a casa ("Foda-se! Cabrão do caralho ainda tem o displante de me pedir uma merda destas? Pensa que é meu pai ou quê?) Ela nem respondeu, levantou o nariz, meteu a primeira, acelerou, segunda, estica, terceira, já não o vê, as lágrimas finalmente soltaram-se "Merda!... Um coelho a atravessar a estrada. Sai da frente se não queres morrer hoje ó paspalho!) Curva, contra-curva. Parecia que estava a chover, não na rua mas dentro do carro, as lágrimas caiam-lhe no regaço e davam a impressão que um dilúvio por ali se tinha instalado. Finalmente ela chegou ao único sítio que fazia sentido estar naquele momento, aquele miradouro que um dia foi deles, onde os sentimentos tomaram forma e agora se desformavam. Ela chorou, soluçou, gritou até, irritou-se com tudo e só lhe apetecia bater-lhe, a ele, e tentar magoá-lo como ele lhe tinha acabado de fazer. Não valia a pena. Lá se rendeu e mandou a tal mensagem, disse-lhe onde estava e deu a entender que tinha ido fazer o funeral daquela relação nem que fosse para o fazer lembrar que um dia tinham sido felizes ali, exactamente no mesmo sítio em que ela agora estava, na mesma pedra onde agora em vez de risos e estórias de apaixonados tolos eram depositadas lágrimas e lamúrias de uma gaja arrependida de não o ter tratado melhor. Uma das suas músicas preferidas começou a tocar "Vai e volta, e no regresso vê se no teu mundo consto eu..."
Chega! Ela não quer pensar mais em sentimentos ou no que significaram um para o outro...
Chega! Ela está demasiado ocupada à procura dos bocados de gelo que se soltaram do iceberg...
Chega! Amanhã o sol nasce e vai ser mais fácil encontrá-los...
Chega...

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